O Maior de Todos!

     Soberanos,

     Há coisas na vida que são inesquecíveis. Que passam de geração para geração. E assim é o Tri Campeonato Mundial e meu amor pelo São Paulo F.C.
     Na época, tinha 15 anos recém completados, a ansiedade era imensa. Na véspera jogo diante do Al-Ittihad, pelas semifinais, passei a madrugada acordado de tanta apreensão e com medo de perder o horário da partida.
     Todos acreditavam em uma fácil classificação do Tricolor, mas eu estava receoso. Já imaginou ser eliminado por um azarão? Em jogo único tudo pode acontecer, e esse temor passava pela minha cabeça.
     O São Paulo abriu o placar, e dava mostras de que não teria dificuldade para obter a vaga para a decisão, até que sofreu o gol de empate. Fiquei em total desespero, imaginando que aquele meu pensamento de “cair para o azarão” se confirmaria. No entanto a equipe conseguiu ampliar o placar para 3x1 na segunda etapa. No fim ainda sofreu o segundo gol, mas nada que atrapalhasse a classificação.
     No dia seguinte, o Liverpool, em disputa pela outra vaga na final, venceu o Deportivo Saprissa por 3x0, completando 11 jogos sem sofrer gols.
     Meus amigos, torcedores de clubes rivais, diziam: "Sofreram para ganhar daquele timinho, enquanto o Liverpool atropelou. Coitados, vocês vão tomar de seis na final."
     Rebati, discuti... Não apenas por ser torcedor, mas por saber que o São Paulo seria campeão. Apesar das dificuldades na semi, aquele elenco do Tricolor era guerreiro, vibrante, unido. Totalmente focado. E em uma decisão deste porte, isso pesa demais!
     Chegou sábado, véspera do grande confronto, e novamente passei a madrugada em claro, apreensivo, nervoso, inquieto. Rezando para o tempo passar rapidamente. Mas parecia que o relógio andava para trás.
     Cerca de meia hora antes da partida fui para a casa do meu pai assistir ao jogo. Foi ele que, indiretamente (ou diretamente?) fez com que eu me tornasse tricolor. Foi com ele que chorei pelo São Paulo. Foi com ele que aprendi o que significava torcer pelo Mais Querido.
     Chegando a casa dele, a bola havia acabado de rolar. Perdi o início, a entoação dos hinos e a entrada dos atletas. Pensei: "ora, passei a madrugada em claro para não perder NENHUM detalhe". Mas perdi.
     No entanto, não perdi o maior dos DETALHES daquele memorável jogo. Passe de Fabão, ajeitada "desajeitada" de Aloísio e lançamento preciso para Mineiro. Toque sutil na saída de Reina. Gol do São Paulo. Gol de Mineiro. Gol para quebrar uma sequência de mais de MIL minutos dos ingleses sem sofrer um tento sequer. Aquele gol significava os pequeninos do Morumbi derrubando os gigantes do Liverpool.
 
     
     A sequência do jogo foi tensa. O Liverpool pressionou. Atacou de todas as maneiras. A cada bola levantada na área era um total desespero. Meu pai caminhava pela sala, como se, em movimento, passasse energia aos atletas. Eu olhava e pensava: "ele viu isso duas vezes, tem quase 40 anos, e está assim ansioso. Eu preciso viver isso também."
     Quando o treinador dos “Reds”, Rafa Benítez, colocou Peter Crouch em campo, fiquei desesperado. Ao atacante passar ao lado de Diego Lugano, notei que o nosso zagueiro batia no ombro do inglês. A diferença de altura era imensa e a bola aérea seria um sufoco para o Clube da Fé!
     Após três gols anulados (de forma correta) e defesas fantásticas de Rogério Ceni, o Liverpool teve sua ultima chance, mas arrematou para fora. Era tiro de meta. Rogério Ceni pegou a bola, e ali eu sabia que seria o último toque na bola do maior ídolo da história do clube da minha vida com apenas duas estrelas vermelhas no peito.
 
 

     Ele cobrou, e com a bola viajando, no ar, o juiz apitou. E, assim como a bola, eu também fui para o ar. Pulei, gritei, festejei... É uma emoção inenarrável.
     Desesperado, meu pai gritava, mas era um grito diferente, um grito quase sem voz, um grito que nunca havia ouvido antes. Era um grito de Tri Campeão do Mundo. Era algo unanime no país. Era a terceira estrela vermelha, conquistada com bravura por um time guerreiro. Era a prova da soberania Tricolor!
     Meu pai me abraçou, tão forte, mais tão forte, que parecia a última vez. E ao meu abraçar disse: "Eu te amo. Nós somos Tri Campeões do Mundo. Só o São Paulo e mais ninguém. Se eu morrer hoje, morro feliz. Feliz por saber que você já viu o São Paulo levantar uma Libertadores e um Mundial. Sempre quis ver um filho meu poder acompanhar isso. Pensava nisso em 1992 e 1993, e agora aconteceu."
     Ali ficamos, por mais de cinco minutos, abraçados. Como se o mundo tivesse parado. E pensando bem, parou... Parou para eu e meu pai, parou para toda a nação Tricolor e parou para que todos pudessem ver o São Paulo deixar de ser apenas um grande clube, para tornar-se O Maior de Todos!

     Saudações Tricolores! 
 
 
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     Dhyego Souza escreve neste Blog às Segundas e Quartas. Excepcionalmente hoje, a coluna vai ao ar em data diferenciada!




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